Saturday, February 25, 2012

Mudança de planos.

Durante boa parte de nossa viagem, uma das preocupações mais frequentes foi o combustível. Por várias vezes, lá estávamos nós fazendo contas para saber se daria para chegar ao próximo posto, se era necessário carregar gasolina extra, etc. Um dos muitos viajantes motociclistas que encontramos pela estrada vinha do Chile, tinha acabado de percorrer a Carretera Austral. Ele nos disse que, no Chile, não havia problema de abastecimento como na Argentina. Não foi bem assim. Em Puerto Tranquilo, descobrimos que há um grave problema de abastecimento no Chile, em quase toda a extensão da Carretera Austral. O motivo é uma manifestação da população em que reivindicam, entre outras coisas, subsídio do governo para o combustível, melhores condições de saúde e educação. Fomos pegos de surpresa por essa manifestação e por alguns instantes, pensamos estar ilhados. Um oficial da polícia rodoviária chilena (os carabineros), chegou a nos dizer que não seria possível voltar por onde viemos e também não daria para prosseguir em direção a Coyhaique, o nosso destino pretendido. Segundo ele, as vias estavam fechadas. Tínhamos uma opção de passar por uma outra fronteira, menos movimentada, de volta à Argentina. Mas a gasolina não seria suficiente para essa manobra. Quando chegamos a Puerto Tranquilo, eu tinha ainda uma autonomia para uns 140 km. O Flamel, com tanque quase cheio e moto mais econômica, poderia rodar bem mais, mas ainda seria arriscado. Decidimos então tentar voltar pelo mesmo caminho. Não foi fácil chegar a um consenso, porque apesar de ser uma estrada com visual lindo, é toda de rípio e em alguns trechos, bem trabalhosa. A distância a percorrer: 180km. Combinamos que se eu não conseguisse chegar, o Flamel iria na frente e buscaria combustível, ou então dividiríamos o que estava no tanque dele. Saímos. Eu pilotando a moto da forma mais econômica possível, tratando o acelerador com o maior carinho. Imaginávamos que encontraríamos a primeira barricada dos manifestantes a poucos quilômetros do vilarejo. A tensão estava alta. Na encruzilhada da Carretera com a 265, não havia nada. Passamos batidos. Em uma rápida parada em Puerto Guadal, consegui comprar quatro litros de gasolina de um morador local, o que me deixou mais tranquilo. Enfrentamos todo o caminho de volta e faltando poucos metros para a chegada em Chile Chico, já estávamos confiantes que chegaríamos à fronteira sem problemas. Infelizmente, lá estavam os pneus queimando na estrada. Paramos próximo, com postura séria e ao mesmo tempo respeitosa. Logo fomos abordados por um manifestante dizendo que não poderíamos passar. Conversamos, argumentamos ser brasileiros apenas em passagem, mas sem sucesso. Ainda era dia e nos informaram que à meia noite abririam o caminho. Não tivemos outra opção, senão esperar. Os manifestantes nos autorizaram passar com a bagagem e foi o que fizemos, com apoio da polícia. Na verdade, foi um episódio estranho e hilário. A polícia nos deu carona em um carro oficial até uma pousada próxima. Nesse dia, ficamos em Chile Chico. A contra-gosto, mas no fim, ficou tudo bem. Até conseguimos passar as motos antes do previsto. No dia seguinte, deveríamos seguir em direção a Bariloche, e mais uma vez, soubemos que teríamos problemas com falta de combustível. É incrível como isso é comum por aqui. Sem falar que, muitas vezes, os postos são grandes, com várias bombas, mas só um frentista atende. Formam-se grandes filas e a população parece já ter se acostumado com isso. Enchemos nossos tanques e também os recipientes de combustível extra e seguimos. À noite, paramos em El Bolsón, depois de encarar mais um bom pedaço da mítica Ruta 40, com todos os seus desafios. El Bolsón é uma cidade pequena, mas bastante voltada ao turismo. Ficamos lá praticamente só para dormir e no dia seguinte saímos para Bariloche. A chegada à cidade pelo sul é bem decepcionante. Ruas sujas, carros velhos, muita poeira, casas e comércio mal cuidado, etc. Todos tínhamos uma imagem na cabeça que de forma alguma correspondeu à realidade. Depois fomos descobrir que chegando pelo aeroporto, a situação é bem diferente. Essa é uma das coisas legais de viajar de moto. A gente não fica preso ao circuito de turismo de massa. Vemos e sentimos melhor a essência de cada lugar. Em Bariloche são tantos brasileiros que já cogitam mudar o nome para Brasiloche. Ficamos em um bom hotel, com algumas mordomias que nem parecem ser para motociclistas imundos como nós. Desde o perrengue na ruta 40, nossas calças e jaquetas estão em estado lastimável! Ontem fomos visitar o famoso Cerro Catedral, uma montanha bem conhecida pelos amantes do esqui. Como estamos no verão, não havia neve, mas estava muito frio. Especialmente por causa do vento. À noite, saímos, comemos muito bem, tomamos um vinho e curtimos um pouco a cidade. É um lugar bem desaconselhável para quem está de regime. Os chocolates, sorvetes são irresistíveis. Sem falar na culinária local que inclui o gorduroso (e delicioso) bife de chorizo, as parrillas, trutas e salmão.

Por fim, estamos em Villa La Angostura. Um vilarejo tão quão ou mais charmoso que Bariloche, perdido entre montanhas e lagos. Flamel e Patrícia seguiram para Neuquén depois de termos almoçado todos juntos. Daqui a 3 dias nos reencontraremos em Buenos Aires. Hasta la vista, amigos!







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